terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
ausencia
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
sem saco para título
O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto felizes? Já imaginou como isso
nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de
uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família
numa festa de colégio? Viu por acaso como nos assustamos se alguém, sem segundos
pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero,
incondicional, sem exigência de troca?" Antonio Lobo
Antunes
Coração
versus Razão. Fazemos essa dicotomia o tempo todo, atribuindo ao coração
tudo que é mais confuso e tudo o que fazemos – e sentimos – mas achamos errado.
Criamos uma guerra entre os dois e dizemos, na maior parte das vezes, que a
Razão deveria vencer. Acirramos uma disputa imaginária na qual quem perde somos
nós. Porque não somos só Coração nem só Razão, somos ambos e muito mais. E
quanto maior é a oposição, mais difícil é amar e viver sem drama. O amor não é
confuso, nós é que criamos a confusão. Há alguns meses li uma frase do Lobo
Antunes que me marcou: “O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto
felizes?” Acho que ele pegou um ponto crucial quando falou isso. Nós
gostamos da confusão. Gostamos até de não sermos correspondidos no amor, ficamos
entediados se tudo dá certo demais. Já pensei que isso tem a ver com o
masoquismo intrínseco de cada um de nós, com a tendência do humano de
destruição, e mil outras hipóteses. Não consegui chegar a nenhuma conclusão
definitiva, mas o que percebi é que de fato não conseguimos ficar muito tempo na
tranqüilidade. Sei que várias pessoas vão discordar, achar que estou exagerando,
que não é bem assim, mas é o que eu acho e o que eu vejo em mim e à minha volta.
Coração/Razão é só um dos pares de opostos que adoramos cultivar. Poderia falar
também de Mente/Corpo, por exemplo, mas no fundo é a mesma coisa: nós e nossa
impossibilidade de aceitar as coisas como elas são. Há momentos em que acho isso
péssimo, penso que é ruim e que deveria levar a vida de uma forma mais simples.
Em outros questiono se essa almejada simplicidade não é apenas um ideal, e outra
oposição que crio para não ficar satisfeita com o que já é. Ao escrever
satisfeita, outra dimensão me toma, a de que tanta confusão nasce
justamente dessa insatisfação inerente ao ser humano, e que não há como remediar
algo que é próprio da nossa constituição. Não há satisfação plena, ao menos não
enquanto estamos vivos, e é só isso que interessa. Então talvez, mais do que
tentar eliminar as oposições e confusões, bastasse apenas ter coragem suficiente
para viver com tudo isso. Outro dia escrevi que o amor é para heróis, querendo
dizer que é muito mais fácil tentar se proteger e se esconder por medo de
sofrer, e que para amar – não apenas se entregar, se apaixonar, mas viver o amor
todo dia – é preciso muita coragem. Amar talvez seja isso, então, ter coragem
para enfrentar a confusão. Ou talvez isso seja viver.
de repente ... fim
De
repente fim. Eu sem ter você, você sem ter a mim, e esta coisa frágil fica em
pedaços no chão,
caída como uma morta que nunca gozou a vida. Ingrata coisa é essa, que enterra
com as patas traseiras os cacos que não podem se defender do destino no fundo de
um cesto de esquecimento. Não há cola que conserte as trincas, nem mãos
diligentes o suficiente para catar os menores fragmentos dos vãos dos tacos.
Pedaços eternamente faltarão, assim como fará falta na estante tão lindo
ornamento. Olhando mais de perto é possível ver a silhueta que o pó deixou na
madeira que envelheceu ao redor da peça de porcelana, deixando evidente uma
pequena ilha de novos ares a tanto escondida debaixo de anos de esquecimento,
sendo ela tão valiosa e tão sensível que nem mesmo com espanador era permitido
tocá-la. O dono chorará sua perda, lembrará do quanto lhe foi caro adquirí-la ou
até mesmo da tamanha estima que lhe tinha por ter sido um presente tão raro,
atribuindo-lhe significados inexistentes até a consciência de tê-la perdido para
sempre. Cessarão as lágrimas dentro em pouco, alguma outra velharia tomará o
lugar marcado pelas arestas de algo antes tão belo, e esta nova alegoria logo se
tornará tão velha quanto a anterior, irrelevante até ser derrubada no chão por
uma limpeza desastrada. E as marcas acumular-se-ão, uma após a outra, deixando
no centro de todas elas uma mancha muito menor e mais clara do que todas juntas,
até que ali não exista mais traços do antigo vaso presenteado por já não se sabe
mais quem, perdido na completude de sua total e atual
inexistência.
texto sem título
Não basta amar…
É necessário ser dramático
Desesperado
E loucamente apaixonado.
Precisa ter aquela cara de atordoado de quem voltou à meninice e encontrou o que procurava. Ficar um pouco perdido viajando em lembranças que aconteceram pela manhã. Precisa ter saudade de apertar o peito, esvaziar o cérebro e causar dores lombares. Amor físico, químico, corporal... De quem já padeceu de saudade, da distância e da vontade louca de correr e dar um beijo. O amor não tem medida e só é morno quando não é amor.
Amor precisa ser carregado
Vai te deixar tonto
Desorientado…
E você pode estar há 50 anos casado
Que o mais-que-amor dura,
Inclusive no roubo do contador.
Amor não acaba por dinheiro, não tem preço nem se encontra em prateleira de liquidação. Tem que ter paixão! Não adianta ser comedido, ter medo de esgotar ou sufocar... Respiração, sopro de mar em concha de beira, contar deitado na grama uma-duas-três estrelas. Abraços de pernas, sorrisos de cantos e novamente... Respiração.
O amigo pode insistir
Que o amor basta…
E eu digo:
Se for só amor, acaba.
Amamos os amigos, os pais, os filhos os irmãos. Conseguimos amar a natureza, uma árvore, sorvete de chocolate e até a roupa de cama nova. Amamos porque gostamos, é fácil amar e desamar. E aí meu amigo... Entra a paixão, amar-paixão nunca é em vão é clichê dos bons, poesia de rima clara, rica e pobre, versos desapegados e colocados no bate-bate do peito, no arrepio do braço e sorriso de pentear cabelo olhando para o espelho.
Por que o desafio do amor
não é escutar eu te amo
Todos os dias
E sim
Não trocar o olhar apaixonado
Pelo olhar de “bom dia”.
E eu me apaixono todos os dias na hora do café, na preguiça da matina. Despertador apaixonado... Cuidado do outro, lembrança dos primeiros encontros e o arrepio que anuncia. Não te desejo bom dia e sim paixão... Pela nossa vida, pela rima de olhares. Desejo poesia.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
das coisas que precisam ser ditas...
(minha alma precisa te dizer coisas
as quais me parecem não querer ser comunicadas
- pela palavra, soariam vagas e dúbias
- pelo corpo, violentas e sem a sutileza que exigem.
resta-me desejar, na esperança de um meio-termo,
que os teus olhos compenetrados e febris
alcancem nos meus,
como que por sintonia mágica e muda,
a revelação secreta e contundente
da notícia que nem mesmo eu sei me dar.)
do amor conhecido...
e se você não tivesse me segurado a mão
com a delicadeza de quem lhe conhece as feridas antigas,
e se você não me dissesse da emoção dos teus olhos
sempre que eles me alcançavam os lábios,
e se você não me ensinasse que a saudade
nos mata antes um pouco como preço para ser morta,
e se você não me causasse tantos clichês irritantes
e palavras e sentires que eu jurei jamais usar,
e se teu beijo não tivesse me ensinado a tua língua,
fazendo-me, sem ela, estrangeira no meu próprio corpo-pátria,
teria eu conhecido o amor?
A letra A
A letra A do seu nome
Abre essa porta e entra
Na mesma casa onde eu moro
Na mesa que me alimenta
A telha esquenta e cobre
Quando de noite ela deita
A gente pensa que escolhe
Se a gente não sabe inventa
A gente só não inventa a dor
A gente que enfrenta o mal
Quando a gente fica em frente ao mar
A gente se sente melhor
terça-feira, 6 de novembro de 2012
E se eu me apaixonar por você?
Eu não posso me apaixonar por você.
Se eu me apaixono por você, o que vai ser de mim? Eu vou ter que suportar toneladas de borboletas fazendo estripulias no meu estômago, voando pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, e eu vou achar estranho me sentir mais leve, mesmo estando tão habitada. Vou ter que aguentar o coração disparando e o medo de estar prestes a sofrer um ataque cardíaco ou coisa assim, até perceber que é apenas você que está chegando com esse sorriso incandescente que minha alma já sente de longe, meu corpo também. Não, eu não posso. Eu não posso me apaixonar por você e, boba, ter o riso frouxo pra qualquer piada-sem-graça que sair da tua boca, e achar a coisa mais bonita do mundo a tua boca. E ter vontade dela, de você. Meus pensamentos vão tentar não apressar o tempo necessário se, por acaso, eu me apaixonar por você. Mas no coração eu já vou ter imaginado tudo, tudo: declarações, cartas, presentes, músicas, cores. No coração eu já vou ter pintado um céu pra nós, azul e vermelho. Nosso. Onde vamos poder fugir a dois sempre que o mundo ficar pesado demais, a gente vai ter o nosso lugar pra descansar. E você vai rir cada vez que me flagrar pedindo, sabe-se lá a quem, para que o tempo não passe e que me deixe ficar um pouco mais enrolada no teu cheiro. A eternidade, quem sabe. E eu vou ficar com muita raiva porque você nunca entende minhas metáforas, e quando falo eternidade não é a eternidade o que eu quero. Porque, se eu me apaixonar por você, eterno vai ser cada instante, e eu vou ter que me apaixonar por você todos os dias. O que vai ser de mim, se eu me apaixonar por você? Vou fazer poesia de cada uma das nossas brigas e dos nossos momentos de amor. É, vou deixar registrada cada uma das vezes que te odiei por achar o máximo que aquelas mulheres deem em cima de você e porque você sempre justifica dizendo que não tem culpa se é gostoso; e todas as vezes que me odiei por concordar com essa justificativa, mas sobretudo por confiar em você, por estar apaixonada por você. Eu vou fazer poesia de você todos os dias, no papel ou no seu corpo. Se eu me apaixono por você vou ter a mania ridícula de sair catando cada um dos sonhos que deixas por aí, por medo, e eu irei grudá-los em você, um a um, só para que aprenda que teus sonhos também são meus, e que nós vamos acreditar neles, juntos. Definitivamente, eu não posso me apaixonar por você. Eu não posso deixar que o coração seja o dono de todas as razões. Porque, se eu me apaixonar por você, vou ser tagarela e falar tudo que penso, discutir sobre assuntos existenciais ou jogos de futebol, ou vou te deixar louco tentando entender o meu silêncio, quando não existirem palavras, além das que escapam dos olhos, do meu corpo ou dos meus dedos. E vou querer, e precisar, ficar sozinha muitas vezes, no meu canto, quieta, mas vou desejar também estar com você, segurar nas tuas mãos e me deixar levar, e vou te fazer entender o quanto preciso estar comigo, antes de estar com você. Aí você vai perceber, e talvez até ache bonito, que eu oscilo em instantes, do branco ao vermelho, da ousadia à timidez. Do ódio ao amor. Mas você também vai perceber que, uma vez apaixonada, eu o sou inteira, em abundância. Escorro paixão em cada um dos meus poros.
Eu não posso me apaixonar por você, menino, porque se isso acontece, é você quem corre um sério risco.
Para Fernando Passos...
Há versos meus escritos nos teus olhos. Eu, que sempre tive medo que a poesia me escapulisse – como aquelas cartas que são colocadas em garrafas e lançadas ao mar e nunca chegam ao seu destino – encontrei versos meus nos teus olhos. Fora de mim, em ti. Logo eu que, dentro do meu equilíbrio e ingenuidade, acreditava em sentimentos comedidos e tangíveis, descobri um universo de coisas infinitas escondidas nos teus olhos. Nas tuas pupilas dilatadas que me convidam a uma paz que não existe, mas que eu vou porque sempre fui teimosa mesmo.
Poesia. É o que fazemos de melhor. É poesia o que tento fazer agora, nessas linhas tortas de palavras erradas e cheias de metáforas, porque nem sei bem o que o lado de dentro tá dizendo. Me incomoda por inteira a necessidade desses versos que se entranham em minha alma e escorrem pelos meus dedos apenas para denunciar coisas nossas, tão particulares quanto aquelas conversas de sábado à tarde. Minha liberdade mora nas palavras, você sabe. E veja que estranho: há palavras minhas nos teus olhos. Nesses olhos embriagados de uma loucura que eu desconhecia e que desperta vontades que pareciam estar a vida toda adormecidas em mim, enclausuradas. Encasuladas.
É no querer que a gente se confunde. Nada de almas gêmeas, porque nós somos almas inteiras. Duas. É nesse mesmo querer que a gente se perde e se encontra de novo. E o que é isso? Esse algo maior – dentro ou fora, não sei. Esse incômodo que transborda insistentemente, o que é? A falta de sossego. O desejo latente de roubar os teus olhos pra mim. A ânsia de aprender a usar as asas imaginárias, por se saber essencial voar. Esse ritmo diferente dentro, essa força estranha fora. Isso, o que é?
Não. Por favor, não tente me responder. Qualquer que seja a tua resposta pode soar imprópria, fugaz. Apenas me deixa ficar aqui, lendo nos teus olhos reticentes trechos do livro que ainda não escrevi. Poesia de corpos. Me deixa começar a perceber que o que há em comum entre nós não é apenas um monte de matéria presa que delineia formas, mas o liame daquilo que não se explica. Se sente. Me deixa brincar de infinitude e não terminar esse poema texto. Melhor: me deixa construir o final que eu quiser. E assim eu vou colocando reticências nos meus devaneios. Em nós.
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal. Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal. E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total do querer que há e do que não há em mim
Caetano Veloso – O Quereres.
É coisa sem métrica, sem rima, sem regras. São palavras soltas - soltas, sabe? Livres. Não cabem pontos finais nem vírgulas nem parágrafos. Simplesmente acontece. É poesia. É a ausência de sentido. É a distração diante de qualquer papel ligeiramente branco, sílabas que se formam desproposital e involutariamente, em hora imprópria, no trabalho, no ônibus, na aula. São os anos que passam, as estações, os desencontros. É recomeçar. Porque tudo, absolutamente tudo, gira em torno do próximo passo, do segundo que se aproxima, dos rumos outros que os olhos inventam. É vestir-se de tristeza, é despir-se e permitir que as cicatrizes apareçam. É sangrar - sim, sangra, podes ver? É coisa de sentir. É fotografar a alma com uma câmera invisível, imortalizar um por do sol, é eternizar e musicar o dia a dia. São versos desconexos as duas e trinta e cinco da madrugada, tentando ser uma declaração boba de amor. É inventar amor. É arrepiar o corpo em um instante de felicidade, e saber voltar para a solidão. É ser amigo da solidão. São os surtos de saudade e de carência. É não saber. É ter unhas afiadas apenas para se agarrar nos braços alheios e pedir socorro, silenciosamente. É abraço dado. São todos os sonhos de abraços não-dados. É um abismo necessário. É sentir o impulso do voo nas entranhas. É saber que a consequência do voo, para os que não têm asas, é a queda, mas ir.
É poesia. Até quando não deveria ser, é.
Acabo de sair do banho. Enquanto enxugava a água que escorria pelos meus ombros, pensei em amor. Pensei em minhas cenas preferidas de cinema, nas suas trilhas sonoras cheias de movimentos, e dancei, nua. Da janela, vi uma mulher na esquina da rua solitária atirando ao vento flores imaginárias. Deve estar jogando fora esperanças viciadas de um amor que não veio, pensei. Pobre mulher, talvez tenha se livrado de um mal maior. Pensei em você. Pensei nas perguntas que escondi sob o colchão e que permanecem lá; as respostas, eu não sei. Talvez perambulem por aí sem se descobrirem respostas, naquele caminho atropelado por pequenos descuidos, o que era meu e teu quando éramos você e eu, e quando fomos você e eu? Pensei em aparecer na tua porta, jogar pedras na janela, perturbar a vizinhança, berrar crueldades e te vomitar todas as minhas interrogações. Eu faria minha cara de recém-saída do manicômio, e você debocharia de mim. Pobre de você, nem sabe que minha loucura maior é te amar assim, obsessivamente. Me deixa te amar? Te amar assim. Te amar. Você é um ponto final que não existe, uma frase que nunca termina. Alguém que sempre fica quando o mundo vai embora, alguém que não fica nunca. Minha insegurança, você me diz que só tenho defeitos e não sou boa o suficiente para você – e eu acredito: talvez queiras meu fel e minhas vísceras e eu só sei te dar meu coração. Mas você não olha pra mim. Porque você não olha pra mim? E se eu morder os lábios provocativa e rir um riso de terceiras intenções? Se eu vestir aquele vestido preto que desenha minhas curvas e deixa minhas costas inteiras de fora? E se eu saltar de pára-quedas, colar declarações em todas as paredes, cantar músicas bregas, colocar fogo no apartamento; será que, assim, você me olha? Me olha. Você é a ligação às duas e trinta e cinco da madrugada, e é quem me confunde inteira quando eu tenho certeza que já não quero tanto assim. Você é o telefone que não toca no dia seguinte. É quem me faz procurar terapia, é a mentira que eu não me canso de acreditar, a saudade que me emudece. O nosso amor não é lindo, baby, é absurdo. Tão absurdo quanto viver cada dia como se fosse o último. E você é intruso, o amor inconveniente que me invade o pensamento quando um amor menos complicado tenta se aproximar. Porque você é os textos que eu escrevo de madrugada, minha tentativa desesperada de não enlouquecer. Esse amor é minha loucura. Minha cura, minha doença crônica. Minha insônia, minhas unhas ruídas, meu único assunto. Você é quem eu odeio por quase um segundo – depois amo ainda mais. Você é o meu problema. Meu medo de não aguentar, minha força absurda pra não chorar. Meu gosto duvidoso. Por quê? Porque eu nasci pra te amar? E porque você, otário, vive pra matar esse amor?
Acabo de sair do banho. Enquanto enxugava a água que escorria pelos meus ombros, pensei em amor. A mulher na esquina, as flores imaginárias, o coração partido. Pensei em você. Todas as coisas que eu pretendia verbalizar se acotovelaram indóceis na ponta da minha língua, viraram um soluço fosco. E, se tivesse de dizer alguma coisa, eu diria apenas “me ajuda a te entender”.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Um metro e setenta
Eu sou um metro e setenta de um corpo com lavas de vulcão correndo nas veias. Um metro e setenta. Um corpo. Uma alma. Um coração. Eu sou meus passos desengonçados e a minha mania estranha de admirar o céu - aquele tipo de coisa sem sentido. Porque eu só sei sentir, sabe? Sinto muito. Eu sou as palavras que se jogam da minha boca, sem o menor critério, e carregam um mundo de informações confidenciais. Um mundo, o meu. Tudo aqui vira motivo de poesia. Me mudo de lugar, escrevo sobre, e as letras confusas já começam a se debater em busca de um novo poema. É sempre assim, talvez num desejo louco de eternizar instantes efêmeros, talvez apenas para ocupar qualquer espaço ligeiramente branco do meu papel, ou da minha pele morena. Talvez as palavras, as tais das palavras, sejam uma tentativa desesperada de não enlouquecer.Talvez por isso eu crio, invento, danço e finjo ser a mulher mais feliz do mundo. Nem sei. Desconfio que poesia é mesmo não saber. Eu sou mulher, um metro e setenta de drama e contradição. E de alma(lê-se : muita alma) A lua, no meu jardim, é traiçoeira. Tão linda é, a lua. Eu sou, menino... Sim...eu sou menino, moleque, homem... as vezes me assusto com esse lado masculino em mim. Eu tento. Chovo sonhos a todo instante. Talvez eu não seja grande coisa, talvez eu deseje apenas ser tua.... Inteira. Sonhar junto contigo e escrever uma história nossa, vírgula por vírgula.... Sem vírgulas, sem pausas. Cansei desse negócio de recuar diante de coisas grandes, sabe? Minha alma sente sede da leve e louca sensação de vento no rosto.... Um metro e setenta tem esse lugar que carrego dentro do peito, onde cabemos os dois.... Porque ser mero espectador das coisas, simplesmente porque elas são fugazes?? Porque deixar para o futuro, o tempo decidir o que tanto queremos? Não. Aprendi a voar e posso levar quem eu quiser entre as minhas pernas. E eu quero você...
“As pessoas que não sabem viver sozinhas estão o tempo todo mendigando aprovação das outras. É preciso aprender a viver só, aprender a fazer silêncio, para poder conviver com o outro, porque dentro de cada um de nós mora uma grande solidão. Há um lugar dentro da gente que ninguém vai, somente nós. E nem nós mesmos sabemos como é esse lugar. Então temos que aprender a respeitar a solidão do outro e a nossa própria solidão. “
Rubem Alves
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